quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um texto pra uma senhora que tem alzheimer e pensa que eu ainda tenho 14 anos, meu amor.

     Nos últimos tempos eu tenho tido vontade de voltar a ser criança. Como dizia o Renato Russo o mundo anda tão complicado, mas não é exatamente por isso. Sinto saudades principalmente da mulher forte, corada, que adorava usar saltos altos, cabelos tingidos de cobre que falava espanhol e me comprava doces. Me ensinava muitas coisas sobre a vida, me levava pra andar de bicicleta e me deixava sempre escolher um sorvete e eu sempre escolhia o que deixava a língua azul ( também sinto saudades de ter a língua azul), incentivava sempre eu e a minha irmã a brincarmos no quintal. Ninãs vayan a jugar en el pátio! Ela que mesmo sendo 60 anos mais velha que eu até pouco tempo atrás pulava corda sem tropeçar por muito mais tempo que eu e a minha irmã. Também lembro de ir ao Ibirapuera e ela andar o parque todo de vestido montada na minha bicicleta nova, ela já tinha 74 anos e eu morrendo de medo e ela ria de mim. Saudades das artes dela, das roupas de boneca que ela mesma costurava, de quando ela pegava guardanapos e desenhava mulheres com corpos violão nuas. Morria de vontade de desenhar igual a ela, ainda morro, mas quem puxou esse dom foi a Diana minha irmã e não eu. Gostava das histórias dela, das tristes e das felizes. Ela era orgulhosa, mandona, bondosa. Eu adorava abraçá-la. Às vezes eu sinto uma dor lancinante desses tempos. De saudades do jeito dela antes do Alzheimer. Parece que a perdi, eu sei que ela não deixou de existir... ela só está muito cansada. A vida foi um pouco dura com ela. Talvez essa doença horrível tenha vindo em forma de presente, ela só lembra da mãe e das coisas mais alegres da vida dela. O esquecimento às vezes pode vir como dádiva. Saudades do colo da minha vó.   

2 comentários:

  1. Dani, me parece q a vida da sua avó de repente ficou tão cheia de tudo q a cabeça simplesmente não deu conta. A cabeça é esperta e resolveu só lembrar das melhores passagens. É um pouco bobo pensar assim, mas espero q faça doer menos. Não tenho dúvidas de q no fundo ela nunca vai se esquecer de vc.

    Um beijo

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  2. É difícil acreditar que a vida é bela quando a gente acompanha de perto o entardecer dela.
    Quando minha avó já estava no fim da vida, procurei dentro dela a essência daquilo que fazia dela e da prole que ela criou com as características que temos até hoje.
    Essa busca foi muito importante pra mim pois descobri que mesmo sem ter vivido na decada de 20, tem gestos que repetimos até hoje.
    É na velhice dos nossos avós que percebemos de que material que somos feitos, e isso por vezes pode ser muito doloroso, por outras conhecer a força interior que temos e não usamos.

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