segunda-feira, 18 de junho de 2012

O amante

O castelo de cartas estava há um passo de cair, não fosse ela para me ajudar, tudo seria sempre o mesmo caos de sempre. Eu sempre relembro aqueles olhos expressivos, tinham uma ternura infantil, mas uma força que dificilmente se vê. Não quero me ater a aspectos físicos, não era a mais bonita nem a mais feia das mulheres. Seus dentes eram brancos, sua estatura era média, seus olhos eram a janela da alma, espelho da virtude, mas também podiam ser muito frios, bastava emergir nas tristezas do mundo. Eu tentava convencê-la de que o mundo é cíclico, pelo pouco de conhecimento que eu tinha de História, mas ela dizia que era só o meu ponto de vista contaminado pelo pessimismo, que eu deveria parar de ler os jornais matinais. Ela dizia:
"Os jornais são uma forma de nos comunicar sobre o mundo, mas eles influenciam demais as nossas ações e acabam por nos fazer agir mal. Dão ideias absurdas às pessoas desesperadas."
Eu ria, não sem me questionar até que ponto aquilo que ela me dizia era relevante. Apesar de não crer nisso, percebi que ler o jornal da manhã me tornava um homem cada vez mais solitário e medroso.
Eu não queria que minhas filhas pequenas fossem vítimas da pedofilia, nem que ela, meus olhos, fosse estuprada, ou que me roubassem o carro que eu acabava de pagar com muito esforço e trabalho, medo de morrer, medo de confiar nos meus vizinhos e colegas de trabalho.Nós nos tornamos escravos do sensacionalismo e do medo da violência. Era um medo velado, mas ia se tornando doentio, eu parava de confiar, isso se estendeu tanto, que um dia parei de confiar em nós, em mim. Gostaria de saber ao certo quem era ela, no começo me era necessária, depois fui me tornando necessário. Por fim, já não nos precisávamos, tínhamos um amor bonito, consumido e desnecessário. Ela era casada, eu também. Nunca tinha pensado em me separar da minha mulher, exceto quando ela me disse que não queria mais, que a casa dela estava em crise, que o castelo de cartas, estava prestes a cair também. E sumiu antes que eu abrisse os olhos. Foi num dia de abril. Odeio dias de abril, tudo de ruim me acontece nesse mês. As mulheres por vezes, me fazem sofrer muito, sem necessidade. Nunca mais a vi, mas aqueles olhos me fitam, me consomem.
Meu mundo foi ficando reduzido à minha mulher e duas filhas. Eu as amava, mas não pude evitar o distanciamento compulsório que a minha vida ia tomando delas, dos pequenos cuidados cotidianos que eu não mais queria participar, das escolhas solitárias que eu ia fazendo.
Então num dia, em agosto, eu comprei uma passagem para Santiago, no Chile e decidi que iria viver só, num lugar onde eu não tivesse conhecidos que me necessitassem, não há coisa mais difícil do que ser necessitado por alguém. Já passei por isso, não dou chance para o mesmo erro duas vezes. Pelo menos é o que eu prefiro pensar, sei que posso necessitar de cuidados de outras pessoas, que a velhice chega para todos. Sei sobre o ciclo.
Hoje Frida vem me ver, mas não vou contar a ela sobre olhos que consomem, vou falar da boca dela que me engole.
Vou amar mais uma vez, mesmo que essa possa ser a última. Mesmo não querendo me machucar. O amor dói.

domingo, 17 de junho de 2012

Sobre a beleza das coisas.

Aquele dia eu andava com os pés fincados no chão, quando eu vi você. Meus olhos se encheram de esperança, minha mente era toda torpor. A beleza não se pode vender, nem comprar, nem trocar, ela pode durar instantes ou eternizar-se como as estrelas. Ela nos é inútil e tão necessária, como tudo que realmente vale a pena, é sem explicação.